PATRIMÓNIO NATURAL / HISTÓRICO
Inventário das GRUTAS


 


Lapa do BUGIO


Planta da Lapa do Bugio - "Click" para ampliar


Objectos de Adorno

a) Colar de contas de Caleíte com Pendente de Amazonite
b) Colar de contas de Madeira
c) Adorno com par de coelhos em osso

Ídolos

a) Ídolo Placa Ardósia 
b) Ídolo Calcário Alcachofra


Pontas de seta e Laminas

a) Quatro Lâminas de Sílex
b) Pontas de Setas Pedunculadas de Sílex
c) Pontas de Setas Côncavas de Sílex


Pedaços de Cerâmica

Cerâmicas da Lapa do Bugio


Tipos de Cerâmica

Cerâmicas do Tipo Campaninforme

 

Esquema da Placa ídolo com Olhos
 



Foto do Original da Placa ídolo do tipo Almeriense

 

Galeria de Placas Ídolo
Cliqe nas placas para ampliar

 NECRÓPOLE DA LAPA DO BUGIO

  • Gruta inicialmente conhecida, por estação Isabel, situada nas terras da faixa Mesozóica litoral a cerca de 500 metros da povoação de Azóia, e 150 metros acima do nível do mar.

  • Foi descoberta por Rafael Alves Monteiro em 16/10/1957, trata-se de uma galeria natural, com cerca de 9 x 6 metros, albergando uma necrópole pré-histórica (1) .

  • Do ponto de vista espeleológico, desenvolve-se em calcários do Jurássico, apresenta várias formações, mas normais para uma Lapa.

  • Do ponto de vista arqueológico, foi considerada uma Necrópole do Neo-Eneolítico e do Eneolítico, dado que os materiais recolhidos durante as escavações a que foi sujeita não se referem a outras épocas, pelo que se presume ter ficado inviolada durante as épocas posteriores, o que não aconteceu por exemplo com a Lapa do Fumo que teve sempre ocupações que vão desde a pré-história, proto-história, e tempos históricos, utilizada portanto desde os primórdios da humanidade até quase aos nossos dias..
     

  • Escavações Efectuadas e Publicações:

    • Por Rafael Monteiro e colaboradores do Museu Arqueológico de Sesimbra, as primeiras, nas zonas A e B (1). tendo sido a última efectuada em 1966/1967 (2), em colaboração com os Serviços Geológicos de Portugal e o Museu Arqueológico de Belém.

    • Foram usados o método da grade e o sistema tridimensional, sendo recuperado valioso espólio, datado entre os meados do terceiro milénio e os primeiros séculos do segundo milénio a.C.

            

    • Destacam-se mais dois trabalhos, da autoria de F. Isidoro, sobre o espólio da necrópole datados de 1963 (2) e um outro de 1964 (3).
       

  • Espólio:

    1. - Sílex - Destacam-se micrólitos trapezoidais, pontas de seta pedunculadas e de base côncava e recta, várias lâminas, bem como dois núcleos de quartzo hialino (mineral não existente na região).

    2. - Cerâmica - Destacam-se vários pedaços de exemplares pertencentes ao tipo Dolménico e ao tipo Campaniforme, semelhantes a outros provenientes da região, Lapa do Fumo e grutas artificiais de Palmela.

    3. - Osso - Foram recolhidos vários punhais, furadores, Cabeças de alfinetes, colares, e destacam-se dois ídolos do tipo Almeriense, raros em Portugal, bem como uma pequena escultura, para adorno, representando um par de coelhos..

    4. - Calcário - Destacam-se, um ídolo cilíndrico com vestígios de ornamentação, tatuagem facial (7), já muito desgastada, e dois outros belos exemplares de ídolos um do tipo pinha semelhante aos de Sintra e Cova da Moura (8), e um outro parecendo uma representação simbólica da influrescência de uma alcachofra.

    5. - Objectos de Culto - É notável a quantidade versus as dimensões dea gruta 9 x 6 metros, além das suas características e os materiais em que foram feitos, nomeadamente os Colares de contas em: Calaíte, Anfíbolite, Serpentina, Aragonite, com pendentes em Amazonite, tudo minerais não existentes na região, por exemplo a Calaíte deverá ser de origem persa , (exceptuando-se a aragonite que existe, por exemplo, em algumas grutas do concelho formando magníficas expeloformas cristalinas), o que deverá pressupor, a existência de trocas comerciais com outros povos (4) .

      - Ídolos Placa em Ardósia - Foram recuperados várias ídolos placa de diferentes dimensões, destacando-se dois, pelas invulgares características dos desenhos representados, que os destacam dos inúmeros exemplares catalogados mundialmente, ( nota 20 para a base de dados ESPRIT (5) organizada pela arqueóloga americana Katina Lillios, onde estão catalogadas, com imagens e bibliografia, mais de 4 mil placas, até agora, descobertas na Península Ibérica, provenientes de uma área de cerca de 350 x 250 quilómetros e lá podemos encontrar algumas da nossa região).

      Relativamente aos dois exemplares de destaque vamos tecer algumas notas curiosas, na tentativa de decifrar os enigmas que eles representam neste momento, já que como diz Katina " .... Acredito que possa ser um tipo de escrita sem palavras. Não é um sistema de escrita, mas usa indicações para a memória, como ocorre em povos sem escrita .... Falta uma Pedra de Roseta...."

      • Exemplar 1 Placa ídolo com Olhos

        Decoração da parte posterior da placa

      Esta  peça em cuja gravação se notam várias faixas horizontais decoradas e encimadas por dois círculos.

      Referimos, uma interpretação possível do seu simbolismo, desenvolvida por Rafael Monteiro e divulgada no jornal D.P. de 24/7/1958, segundo o qual, este tipo de grafismo representaria a mumificação do indivíduo sepultado e logicamente envolto em ligaduras, relembrando a muito ancestral tradição, segundo a qual as almas sairiam pela boca se olharmos de novo o ídolo em causa, verificaremos a ausência da representação da boca, podemos no entanto verificar as seguintes representações simbólicas: de baixo para cima, faixas horizontais decoradas ( as ligaduras ),  no topo dois círculos ( os olhos ), na região central destes, a barra vertical ( o nariz ), na região superior duas barras curvas ( as arcadas supraciliares ), no verso da placa só as faixas horizontais decoradas ( as ligaduras ).

      Tudo isto com a total ausência da representação da boca. Curiosamente o mesmo se verifica em muitas outras placas ídolo encontradas na vizinha Espanha.

    • Exemplar 2

        Esquema da Placa ídolo Tipo Almerense   Detalhe do Ídolo Almeriense

    Esta  peça em cuja gravação se nota a presença interior do desenho de um ídolo do tipo Almeriense, foi descoberta em 1967, entre as sepulturas 8,9 e 10. Trata-se de um placa de xisto argiloso amarelado, possuindo apenas gravação numa das faces, porém observando-a, veremos que contem no exterior, ocupando dois terços da superfície da placa, as características típicas do desenho standard das placas ídolo do tipo dolménico da península (distinguindo-se a cabeça, o corpo e a base preenchidas por faixas laterais e triângulos lisos e reticulados), no espaço central encontramos a gravação de um segundo ídolo tipicamente do estilo dos ídolos da cultura de Almeria (nota-se a cabeça representada por um triangulo invertido e o corpo formado por dois triângulos unidos pelo vértice, surgem ainda dois traços pendentes  da linha dos ombros, representando o braços e nas extremidades é possível observar várias incisões que se possivelmente representaram os dedos), o que a torna especial.

    Levando-nos a concluir que ela representa uma ligação efectiva entre duas culturas distintas, " o chamado ídolo Almeriense é o que maiores afinidades apresenta com os ídolos de tipo oriental, opinião esta a reforçar outras provas da existência de relações, já nessas épocas remotas, entre a Península Ibérica e o Mediterrâneo Oriental "(6) . Pelo que se pressupõem de uma importância fundamental, o estudo desta placa que representa o elo de ligação entre as diferentes culturas, já que o número de ídolos do tipo Almeriense, encontrados no território nacional é diminuto, sendo o mesmo estranho à cultura neolítica do Sul de Portugal, que pelos achados registados, se revela essencialmente Dolménica. Note-se a presença de colares de contas de Calaíte, os pentes de marfim, os recortes antropomórficos de várias placas de xisto, são indícios evidentes, de ligações às civilizações do Vale do Nilo.

    Pode-se concluir que esta figura antropomórfica representada, neste exemplar da placa da Lapa do Bugio, nada tem a ver com os conceitos religiosos padrão dos povos agricultores, autóctones e a mesma só poderá representar influência de populações recém-chegadas em busca do cobre , atraídas pelos recursos naturais (originárias do sudoeste Espanhol, Mediterrâneo Oriental, norte de África e Próximo Oriente ), introduzindo novos conceitos de ordem religiosa, representados por essa figurinha antropomórfica,  revolucionária nas placas ídolo da época.

    • Restos Ósseos - Foram descobertas 11 sepulturas, um ossário e um esconderijo, de onde foram, recolhidos alguns exemplares, que permaneciam á alguns anos na estante IV do Museu Arqueológico de Sesimbra ( no Castelo ), tal como outros aguardando investigação antropológica.


_____________________

  • (1)  Rafael Monteiro e E. da Cunha Serrão, <<Estação Isabel (Necróplole pré-histórica da Azoia)>>, Actas e Mem. do I Congresso Nacional de Arqueologia, Lisboa, 1959.

  • (2) Agostinho F. Isidoro, <<A lapa do Bugio (Necrópole pré-histórica da Azoia)>>, Trab. de Antrop. e Etnol., vol. XIX, fasc. 1, Porto 1963.

  • (3) Agostinho F. Isidoro, <<Estudo do Espólio antroplógico da gruta neo-eneolítica do Bugio (Sesimbra)>>. Trab. de Antrop. e Etnol., vol. XIX, fasc. 3-4, Porto 1964.

  • (4) O. da Veiga Ferreira, <<Manifestações de Arte no mobiliário funerário do Eneolítico de Portugal>>, Revista de Guimarães

  • (5) disponível em http://research2.its.uiowa.edu/iberian

  • (6) R. Monteiro, G. Zebyszewski e o. da Veiga Ferreira, <<Uma notável placa de xisto encontrada na Lapa do Bugio (Azoia)>>, Revista de Guimarães

  •  http://research2.its.uiowa.edu/iberian

  • (7)) Eduardo C. Serrão, Carta arqueológica de Sesimbra - desde o Paleolítico antigo até 1200 d.C., Setúbal, 1973.

  • (8) Guia do Museu Arqueológico de Sesimbra


  • Protecção :

  • Registo IPA - CNS: 976 - 2961

  • Datações do Sítio - CNS: 976, O. da Veiga Ferreira, Sepultura Campaniforme, Calcolítico, C14, Idade BP:4850+-45,Calibração 1: 3691-3549 cal BC, Calibração 2: 3707-3530 cal BC.

  • Bibliografia : Guia do Museu Arqueológico de Sesimbra; Carta Arqueológica do Concelho de SESIMBRA ... Eduardo da Cunha Serrão - Câmara Municipal de Sesimbra - 1994; ****SERRÃO, Eduardo da Cunha, Investigação Arqueológica na região de Sesimbra, Porto, 1959; SERRÃO, Eduardo da Cunha, VICENTE, Eduardo Prescott, Escavações em Sesimbra, Peniche e Olelas - métodos empregues, in Actas e Memórias do 1º Congresso Nacional de Arqueologia, 1º vol., Lisboa, 1959; SERRÃO, Eduardo da Cunha, Cerâmica com ornatos a cores da Lapa do Fumo (Sesimbra), in Actas e Memórias do 1º Congresso Nacional de Arqueologia, 1º Vol., Lisboa, 1959; Carta arqueológica de Sesimbra - desde o Paleolítico antigo até 1200 d.C., Setúbal, 1973.


 

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