PATRIMÓNIO NATURAL / HISTÓRICO
Inventário das GRUTAS



Gruta da Figueira Brava



( Gruta cotada mundialmente:
com interesse para estudo dos últimos Neandertais )





Distribuição dos  Neandertais



Reconstituição de Neandertal


Comparação do dente pré-molar de Homo Sapiens Neanderthalensis da Gruta da Figueira Brava (à esquerda) com um dente idêntico de Homo Sapiens Sapiens. Sucessivamente em vista, oclusal, distal, e vestibular. Comprimento maior: 2,3 cm. Segundo M.Telles Antunes, no prelo.


Dente molar de Homo Neanderthalensis da Gruta da Figueira Brava, note-se os sulcos de desgaste (11),

Dente pré-molar de Homo Neanderthalensis da Gruta da Figueira Brava, note-se os sulcos de desgaste, na parte superior (12).
 

Técnica Levallois

Esboços de núcleos - Actas do Encontro sobre Arqueologia da Arrábida (10).

Núcleos discóides, centrípetos e alongados - Actas do Encontro sobre Arqueologia da Arrábida (10).

Vários utensílios ( faca de dorso, furadores e pontas perfurantes) de talhe Levallois - Actas do Encontro sobre Arqueologia da Arrábida (10).

Raspadores de diferentes tipos - Actas do Encontro sobre Arqueologia da Arrábida (10).
 

Conjunto Faunístico da Gruta da Figueira Brava. Em cima: maxilar superior esquerdo e mandíbula direita de pantera; ao centro: mandíbula de cavalo; em baixo: mandíbula de veado. Comprimento da mandíbula de cavalo: 25 cm. Foto de M. Telles Antunes.
 

Quadro sinóptico dos grandes mamíferos presentes na Gruta da Figueira Brava, segundo M.Telles Antunes, no prelo. Frequência de representação: alta (circulo aberto), média ( circulo fechado grande), baixa (circulo fechado pequeno).
 

 



 







Gruta  da Figueira Brava

  • A Gruta   situa-se,  nas coordenadas 38º 28' 23" de latitude Norte e 8º 59' 42"  de longitude Oeste de Greenwich, no sopé da encosta meridional do maciço da serra da Arrábida, entre Alpertuche e  o Portinho da Arrábida, a ocidente do Forte do Creiro, em arribas escavadas pelo mar no Plistocénico, numa zona actualmente representada por conglomerados, provenientes de terraços marinhos de 12-15 e 5-8 metros, resultantes do último intreglaciário e ao princípio da glaciação de Wurm (100.000 Anos), com o avanço temporal desta glaciação, digamos que o nível do mar foi descendo, ficando, à cerca de 30.000 anos (data dos primeiros vestígios de ocupação humana, na gruta)  à volta de 60 metros abaixo  da Gruta, espraiando-se por vasta planície litoral (1) , actualmente, o desnível da gruta ao nível do mar deverá situar-se entre os 5 metros. Onde surgem relativamente perto, mais duas ocorrências de destaque, a cerca de poucas dezenas de metros encontramos a Lapa de Stª. Margarida, e na área de Galapagos, numa trincheira da estrada EN 379-1, uma nova jazida do Paleolítico (9).
     

  • Note-se que nesta região, (Lapa de Stª. Margarida), já tinha sido visitada e estudada, por Breuil e Zbyszewski,  em 1940, onde recolheram um biface " abevilense " e vários artefactos de quartzo considerados  " mustierenses ". E que na nova jazida de Galapagos,  foram recolhidos por, M. Telles Antunes, peças de quartzo e sílex semelhantes ás da Figueira Brava.
     

  • Note-se ainda que a Serra da Arrábida foi uma ilha durante, vários períodos de tempo geológico (Antunes, 1999), nomeadamente durante o Miocénico o que pode muito bem, ter provocado a manutenção e desenvolvimento de conjuntos faunísticos de formas arcaicas e outras endémicas.
     

  • Descoberta em 1942 por Henri Breuill e G. Zbyzewsky.

  • Do ponto de vista espeleológico, trata-se de uma cavidade resultante de dois factores naturais:

    • Intensa actividade cársica da zona, constituída por rochas carbonatadas detríticas do miocénico.

    • Vasta plataforma de abrasão marinho em épocas em que o nível do mar se encontrava acima do actual.

    A entrada efectua-se, pela  falésia natural, devida ao alargamento de uma diaclase vertical a cerca de 5 metros acima do nível da preia-mar, na base da serra da Arrábida. A primeira sala, com cerca de 12 m de comprimento  e alta, muito adulterada por " ocupações recentes " incluindo uma casa clandestina felizmente, já demolida. Esta galeria dá acesso, através de uma passagem estreita, uma outra sala interior, bastante maior, de planta assimétrica, com cerca de 10 m de altura, coberta de espessa crosta estalagmítica, com algumas falhas, que permitiram escavação mais fácil, onde foram recolhidos vários artefactos, ilustrativos das culturas existentes.

    Porém a presente 2º sala não acaba aqui, pois prolonga-se na direcção Este por corredor cada vez mais estreito e dificultando a passagem para o que será uma vasta terceira sala, observada por C. Tavares da Silva (Silva e Soares, 1986, Fig. 14), esperando-se que seja explorada, pois talvez se conservem ali,  mais importantes descobertas relativas aos últimos Neandertais.

    As suas formações são comuns a uma gruta natural sendo as espeleoformas normais sem nada de especial a assinalar.

  • Do ponto de vista arqueológico, foi considerada uma gruta de interesse fundamental, para o conhecimento dos últimos neandertais, daí ser relacionada mundialmente com os estudos universais sobre o Homo Neandertal, suas longevidades e a possível miscenização cromossomática ao longo de gerações.
     

  • Escavações Efectuadas e Publicações:

    • Por G. Zbyszewski e H. Breuil em 1945, as primeiras efectuadas, tendo sido detectado restos de fauna quaternária e indústria lítica.

    • Foram seguidas por mais sete outras, levadas a cabo por: C.Tavares da Silva e elementos do Centro de Arqueologia de Almada, sendo recolhidos artefactos líticos e fauna plistocénica.(Silva e Soares, 1986,)

      Em 1986-1990, por iniciativa do Centro de Estratigrafia e Paleobiologia da Universidade Nova de Lisboa, Telles Antunes, João L.Cardoso, Carlos da Silva e Maria Soares.

      Por exemplo:
      (8)

      • Da prospecção efectuada em 1986, por Telles Antunes, foram recolhidos vários materiais de interesse arqueológico, nomeadamente os famosos restos de dentes de Homo Neanderthanlensis, além de outros vestígios de ocupação humana, bem como ossadas de Foca do árctico e Pinguim-gigante.

      • Da prospecção efectuada em 1989, por Carlos da Silva e Maria Soares, foram recolhidos diversos artefactos de quartzo e sílex da técnica Levallois, tendendo para lâminas com entalhes laterais (encoches) e denticulados, buris e núcleos. Da fauna encontrada em associação a indústria destacam-se ossos de Cervus elaphus (nota espécimes actuais podem ser vistos na Tapada Nacional de Mafra), dentes de Hyaena Crocuta (nota espécimes actuais na Galeria de imagens ) e conchas de Mytilus e Patella.
         

  • Espólio:

    Encontrado na sequência estratigráfica, constituída por areias e pedras, ricas em conchas e restos de fragmentos de ossos trazidos pelo homem, foram datadas por C14, U  entre 30 e 31 mil BP.


    1. Indústria Lítica  - Foram capturados, até hoje, cerca de dois milhares e meio de artefactos, excluídas as esquírolas de talhe também recolhidas.  Destacam-se artefactos elaborados sobre lascas, semelhantes a lâminas regulares, e outros com entalhes, laterais (encoches) e denticulados além de vários do tipo buris e núcleos. Executados em quartzo, sílex e quartzito.

      Trata-se de uma indústria de subsistência, devido à escassez de matérias-primas adequadas, existentes na região, ( quartzo - proveniente de conglomerados do jurássico superior da Serra da Arrábida - rochas siliciosa finas recolhidas na Serra de São Luís ).
      " Os procedimentos de talhe característicos do Paleolítico Médio - discóide e Levallois - são amplamente maioritários, com predomínio esmagador do primeiro. Este facto deve-se provavelmente ao tipo matérias-primas e sobretudo de suportes iniciais utilizados.
      Nos utensílios, predominamos raspadores(IR:57) - e, nestes, os simples convexos, seguidos dos denticulados (Grupo IV: I7) e entalhes (Grupo  IV a: 22,6). Tendo em conta os critérios da diagnose bordiana tradicional das indústrias líticas do Paleolítico Médio, pode dizer-se que a  indústria da Gruta da Figueira Brava corresponde a Mustierense Típico, rico em denticulados, de talhe não Levallois e fácies não levalloisense. "
      (10).
      Ilustrações exemplo:
       

    2. Restos Ósseos - Foram descobertos e recolhidos alguns vestígios:

      Da presença Humana, destacam-se, um dente, e uma falange do Homem de Neandertal (2) , "... hay que constatar la presencia de restos atribuibles a Homo sapiiens neaanderthalensis, un segundo premolar, un metacarpiano y uma falange... (Antunes 1990/91)", que se revelaram de uma importância fundamental e são mundialmente reconhecidos , como dos últimos vestígios, da sua presença. Conjuntamente com os achados referência de: Zafarraya, Cueva de Sidrón (Espanha) e Salemas, Columbeira (Portugal). O que prova, que os Neandertais da industria Mustierense, e as populações Aurignasenses, foram contemporâneas na península Ibérica  (3), com ou sem miscigenação de genes e aparecimento de híbridos ? como se está a estudar com os achados de Lagar Velho (4), . Note-se que segundo Zbyszewski & Teixeira (1949), o terrasso de 5-8 metros, onde a gruta se encontra, é referenciado como sendo semelhante a outro existente na "Devilís Tower" em Gibraltar, reconhecida jazida Neandertal.

      Da presença Animal, destacam - se, de entre os quatrocentos restos de grandes mamíferos que foi possível identificar (Cardoso, 1993,1996), um leque faunístico muito diversificado (18 espécies de grandes mamíferos, 19 de pequenos mamíferos, 32 de aves e 8 de répteis ), que vão desde os herbívoros (Cervus elaphus, Bos primigenius, Capra pyrenaica, ...), os carnívoros (Crocuta crocuta spelaea, Panthera pardus, Panthera spelaea, Felis sylvestris, Canis lupus, Vulpes vulpes, ...) ou até espécies actualmente Nórdicas como a foca Pusa híspida.

      Referência especial a  vestígios de:  Elefantes Plistocénicos,  um molar, resultante da escavação de 1988,  que foi atribuído, na altura a Mammuthus primigenius, sendo postas algumas reservas posteriormente e que possivelmente, o passa a datar como, referente a exemplares de Elephas antiquus
      (5).
       


Quadro síntese (abreviado) (5)

Vestígios de aves marinhas como: " Pinguinus impennis, o Sula bassana, o extinto Puffinus holeae  (6), mais exactamente por níveis:


 (7)

_____________________

  • (1)  GJ.Pais & P. Legoinha, Memórias da Acadmia das Ciências de Lisboa, Classe de Ciências, T. XXXVIII: 69-81

  • (2)  Atunes & Cardoso 1992

  • (3)  Scott E. Mardis, The Last Neandertals, Vol.48-N.5, Sep/Oct-1995, Archaeological Institute of America.

  • (4) ATattersall & Schwarts, Hominids and hybrids, Proc. Natl. Acad. Sci. USA, Vol.96, pp.7117-7119, 1999.

  • (5)  M.F. Sousa  M. Figueiredo, The Pleistocene elephants of Portugal

  • (6)  Cécile MOURER-CHAUVIR, SOCIETY OF AVIAN, PALEONTOLOGY AND EVOLUTION, INFORMATION LETTER, n° 4, October 1990.

  • (7)  Tommy Tyrberg, Kimstadsv. 37, SE-610 20 Kimstad, Sweden, Pleistocene birds of the Palearctic,  March 1, 2005.

  • (8)  Base de dados IPA- Trabalhos do Sitio Figueira Brava - CNS 3915 - 2005

  • (9)  Paleolítico Médio em Galapagos, M.T.Antunes, J.L.Cardoso, J.C. Kullberg & P.Legoinha, www.dct.fct.unl.pt/Plegoinha/Galap.html

  • (10)  Raposo & Cardoso , " A gruta da F.Brava no contexto do Paleolítico Médio Final do Sul e Ocidente Ibéricos - Actas  do encontro sobre arqueologia da Arrábida

  • (11)  José Enrique Egocheaga, Alejandro Pérez-Pérez, Laura Rodríguez, Jordi Galbany, Laura Mónica Martínez, Miguel Telles Antunes, " New Evidence and Interpretation of Subvertical Grooves in Neandertal Teeth from Cueva De Sidrón (Spain) and Figueira Brava (Portugal), Anthropologie • XLII/1 • pp. 49–52 • 2004

  • (12)  Pérez-Pérez, A.1; Galbany, J.1; Martínez, L. M.1; Egocheaga, J. E.2; Rodríguez, L.2 y Antunes, M. T.31 Secc. Antropología. Dpto. Biología Animal. Univ. Barcelona.Av. Diagonal, 645. 08028 Barcelona. 2 Área de Antropología. Dpto. Biología de Organismos y Sistemas. Univ. Oviedo. Catedrático Rodrigo Uría, s/n. 33006 Oviedo. 3 Centro de Estratigrafia e Paleobiología da Universidade Nova de Lisboa (INIC) 2825 Monte da Caparica, Lisboa. martinez.perez-perez@ub.edu , Patrón de Desgaste Interdentário en Forma de “Subvertical Grooves"en Piezas Dentarias de los Neandertales de Cueva de Sidrón,  Biología de Poblaciones Humanas: Diversidad, tiempo, espacio.

  • http://donsmaps.com/makingflinttools.html (técnica levalois)



 

ANTERIOR MENU Geral